Críticas

Final de partida: um Beckett sem pausas

Por Kike Barbosa


Fui assistir a Final de partida sem muita expectativa. Embora eu considere esse o melhor texto teatral de Samuel Beckett, pensava comigo: o que se pode fazer com uma peça como essa, que é tão fechada em si mesma? O mesmo que pensava quando fui assistir a Happy days. O que estou querendo dizer é que a estrutura das peças de Beckett é muito fixa, sendo quase impossível se inventar demais sob risco de perder a essência da obra. Ao chegar ao teatro, o cenário já está a mostra e, sim, lá estão os indefectíveis latões de lixo, as duas janelas, o quadro em branco, Hamm tapado pelo lençol... Enfim...todos os elementos indicados pelo autor. Restava esperar uma boa atuação dos atores.

Mas, ao contrário de Happy days, de Bob Wilson, que, na minha opinião não acontece, o espetáculo me prendeu do início ao fim. O que não quer dizer que eu tenha gostado de tudo no espetáculo, mas ele “acontece”. Nos envolve, nos faz rir, ao mesmo tempo em que transpira uma crueldade terrível. Os atores estão muito bem equilibrados em suas atuações, com destaque para o trabalho vocal que é realmente ótimo. O ator que interpreta Hamm atua brilhantemente como um grande canastrão como sugere Beckett. Os atores que interpretam os pais de Hamm, também, são convincentes, embora sejam muito mais jovens do que seus personagens velhíssimos. Mas, para mim, o maior diferencial, além do ritmo acelerado que a direção imprimiu ao espetáculo, é a concepção do personagem Clov. Ao iniciar o espetáculo, esse diferencial já começa aparecer. Esperando um Clov se arrastando, quase parando, como sugere o texto, fui surpreendido pela entrada deste, com um ritmo frenético e com movimentos intensos e cheios de energia. O ator que o interpreta nos impressiona com seus incontáveis tombos e trombadas. O que realmente adorei nesse Clov foi o seu lado cruel que, nessa montagem, é muito bem explorada. Sendo o único que se move e que pode alimentar os outros, ele aproveita dessa posição para pequenas vinganças e atos de agressão. As montagens que tinha visto até então sempre o retratavam como um ser idiotizado e massacrado pelos desmandos do déspota Hamm. Mas aqui o jogo de poder realmente se intercala entre os personagens. O massacre é mútuo e Clov deixa de ser o mais coitadinho dos coitados e é tão terrível quanto Hamm.

Em termos visuais, não goste nada do cenário. As paredes falsas que limitam o espaço de atuação são de um aspecto amador. E a representação das janelas e das portas não tem criatividade. O figurino também é bem irregular. O de Clov é interessante, embora previsível. O figurino dos pais passa batido, mas o de Hamm achei ruim, pois parece um ceguinho, tocador de sanfona, de alguma feira popular nordestina, o que não tem a ver com o personagem. A iluminação é eficiente, mas não tem nada demais.

Voltando ao ritmo da peça, eu gostei particularmente da opção pela velocidade, embora concorde com meu colega Marcelo Adams, sobre a importância das pausas que, quase nunca, são respeitadas e, nesse sentido, acho que o diretor poderia ter explorado mais, intercalando a velocidade com pausas. E, sim, acho que o maior equívoco da peça são os monólogos finais, nos quais os personagens subitamente, passam a demonstrar um sofrimento atroz pela sua condição e auto piedade. São textos belíssimos, mas que ficam esvaziados pela tentativa explicita da direção de tentar nos emocionar e terminar a peça fazendo a plateia chorar. A intenção fica muito visível e isso gera um efeito inverso, o que me distanciou e me fez lamentar que terminasse assim, pois, até então, estava feliz por assistir a uma montagem de uma peça fechada como essa, já tantas vezes encenada, mas que ainda pode ter o poder de nos emocionar.

Acho o resultado altamente positivo e o grupo venezuelano está de parabéns pelo sucesso da montagem.

*

Kike Barbosa é ator e diretor.

Blog Poa em Cena, 28 de septiembre de 2010

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